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Missão
suicida - 1970

1970 - Rádios - à direita com a G3 com um dilagrama o
Intonga Tchudá (morto após a independência)
Era domingo, o dia aproximava-se do fim, quando entrou um elemento da população
a correr na vila, dizendo que os guerrilheiros se aproximavam em grande número
da Outra Banda, estimando-os em 200, passados alguns minutos chega outro
elemento a dizer a mesma coisa, apenas com a diferença que estão mais próximos,
depois outro, e mais outro.
A informação final é que a guerrilha avançam em linha e já estão perto na orla
da mata da Outra Banda.
A situação é um pouco estranha, a guerrilha não costuma avançar à luz do dia, e
raramente se deixa ver, excepto se isso for propositado, dai o alferes Matos
alertar que talvez nos queiram intimidar mostrando que irão fazer um ataque em
força à Outra Banda, levando-nos a concentrar ao todos os efectivos ai, e exista
uma outra força que vá atacar no lado oposto, onde existem vários pontos
vulneráveis, os quais serão impossíveis de socorrer se estivermos todos debaixo
de fogo na Outra Banda.
Um pelotão é enviado para reforçar o existente na Outra
Banda, e os outros 2 pelotões ficam no lado oposto, reforçando ai as linhas de
defesa.
Os guerrilheiros também poderão ter cometido um erro, e terem-se deslocado
demasiado cedo, mas provavelmente só atacarão ao anoitecer como é seu habito,
pois de noite não existe cobertura aérea, pronta para tudo a C. Caç. 13 ocupa as
trincheiras, e aguarda o ataque iminente.
O major que comandava o Batalhão deu então uma ordem incrível, indicando que eu devia ir com um
grupo de 4 homens à mata onde foi vista a guerrilha, ver e relatar o que se
passava.
Esta acção era puro suicídio, pois as informações que nos chegaram da população,
permitiam facilmente deduzir, que naquele momento estavam já posicionados, e a
observar-nos a partir da orla da mata, que rodeava o quartel, mesmo que
existisse um erro de avaliação das forças da guerrilha, e fossem apenas 60 elementos vindos Queré, era obvio que não tinha qualquer possibilidade de
sair com vida, daquela armadilha em que me ia meter.
Apesar de considerar que a disciplina era essencial para um militar, e até para
garantir a nossa sobrevivência, e de
me esforçar por cumprir o que me era pedido, não podia aceitar aquela ordem, e
assim o major que já andava à tempo com vontade de me dar uma “porrada”,
finalmente tinha conseguido criar uma situação em que me ia conseguir tramar.
A ordem foi-me transmitida pelo alferes Joshua, que comandava o meu pelotão, no qual tinha plena confiança, pelo
que lhe respondi que não a iria cumprir, pois era puro suicídio atravessar os
mais de 200 m de terreno liso, que separavam o arame farpado da orla da mata,
sem qualquer possibilidade de protecção, e enfrentar uma força daquela dimensão.
Expliquei ao alferes que iria fazer uma patrulha simulada, da qual eu assumiria
toda a responsabilidade se fosse apanhado.
O alferes resolveu dar-me uma ajuda, e foi falar com o alferes Pimenta, o qual
também deu de imediato o seu apoio.
Encenei uma saída com a secção, dirigindo-me ao alferes que comandava as tropas
na Outra Banda, dizendo-lhe que ia sair pela porta lateral a qual estava fora do
seu raio de visão, e ele informou o major que íamos sair.

1970 - Rádio AVP1, na gíria denominado rádio banana
Enfiamo-nos todos numa tabanca, e de acordo com as ordens do major, comecei a
fazer-lhe através do rádio banana, um relato imaginário da progressão no terreno.
Não estava muito preocupado com as perguntas que o major me iria fazer pela
rádio, pois ele só conhecia o mato pelo mapa, e eu tinha um igual à minha
frente, preocupa-me sim os que o rodeavam, e principalmente os comandantes da
milícia.
Uma descrição errada, como por exemplo referindo que estou no ponto “x”, e que o
inimigo não é visível num raio de 200 metros, quando naquele local existe uma
mata cerrada que não permite ver nada, era suficiente para alertar os comandantes
da milícia, que eram profundos conhecedores do terreno, e que estavam com o
Major junto ao rádio, assim tentei percorrer mentalmente
um caminho pelo qual já tivesse passado realmente.
O relato da patrulha virtual foi um sucesso … o inimigo não era visível em lado
nenhum, provavelmente tinha detectado os movimentos nas nossas trincheira, e
percebido que tinha perdido o factor surpresa e retirou, pelo que recebemos ordem
de regresso.
Não chegou a realizar-se nenhum ataque, mas dias depois o alferes Joshua foi
chamado ao comando e o major perguntou-lhe porque não tinham cumprido a ordem de
saída, este respondeu que não havia condições para o fazer, e que era suicídio
uma saída naquela situação, o major retorquiu "A vida é um risco". Devia ter
havido algum milícia ou algum elemento da população que nos viu esconder-nos na
tabanca, e achando estranho nos deve ter denunciado junto de algum comandante de
milícia, e o Major acabou por saber.
Publicado em 21/05/2006 e revisto em 1/08/2007 por Carlos Fortunato
Crónica de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
(1) Fotos de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
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