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 Morés - Operação Jaguar Vermelho - 9/6/1970

 

 

A mata do Morés era um dos nomes míticos da guerra na Guiné, tratava-se de uma mata muito densa, no meio a Guiné, na qual se encontrava situado o quartel general da zona norte do PAIGC.

 

A mata do Morés era um dos "santuários" da guerrilha, apenas superado pelas zonas junto à fronteira sul, pois ai com forte apoio do exterior, e com boas linhas de abastecimento vindas do território da Guiné-Conakry, o seu poder de fogo era inesgotável, transformando num inferno os aquartelamentos junto à fronteira. Na fronteira norte o problema na altura ainda não era tão grave, pois o apoio do Senegal, ainda não era um apoio declarado.

 

Nesta mata, segundo as informações existentes na altura, a guerrilha possuía uma força estimada em 900 homens bem equipados, onde se incluíam forças especializadas, cubanos, armas pesadas, anti-aéreas, abrigos subterrâneos contra bombardeamentos, hospital subterrâneo, etc.

 

Apesar de ser uma certeza de que possuía forças consideráveis na zona, era sempre difícil avaliar a dimensão das forças que iríamos enfrentar, pois a guerrilha facilmente as dispersava pelos vários acampamentos existentes, ou as concentrava se existisse um alvo que quisesse destruir.

 

No centro desta mata existia a tabanca do Morés, mas sem grande importância, e sem grande possibilidade de defesa, pois encontra-se em terreno aberto.

 

As bases do PAIGC estavam espalhadas pela mata, bem camufladas e era frequente a sua mudança, para evitar a sua localização.

 

O sucesso de uma operação nesta mata, dependia muito das informações conseguidas por dissidentes do PAIGC, nomeadamente quando se conhecia a localização de depósitos de material, não era este o caso da nossa "visita", pois creio que se queria apenas  afirmar ao PAIGC, que não existia nenhum local onde não pudéssemos ir.

 

Pelo que nos foi dado observar na nossa rápida "visita", a mata possuía caminhos muito estreitos e alguns deles minados, ladeados por um mato tão cerrado que era impossível passar, ou lançar uma granada, nos lados desses caminhos trincheiras, para ninhos de metralhadoras, nas copas de algumas árvores algumas uma placa de madeira e uma caixa, indicavam locais de vigia e talvez a existência de um sistema de comunicações, os abrigos anti-aéreos eram muito rudimentares, e consistiam num enorme buraco cavado no chão, sem qualquer estrutura que o suportasse.

 

 

 

 

1970 - Telefone de campanha do PAIGC,

 apoia a orientação do tiro das armas pesadas (1)

 

 

Combater no meio da mata do Morés, colocava grandes dificuldades, o primeiro era que ficávamos privado de apoio aéreo (a vegetação é de tal modo cerrada que não se consegue sinalizar a nossa posição, para a aviação nos dar apoio, são escassas as clareiras e normalmente estão sobre a mira de morteiros), as progressões são difíceis (tem que se caminhar agachado ou a rastejar, para conseguir passar entre as árvores), a alternativa de seguir pelos trilhos existentes tinha os problemas referidos anteriormente, pois existia um sistema defensivo implementado, que mesmo sendo rudimentar, dava-lhes vantagem uma grande vantagem num confronto com as nossas tropas.

 

Apesar de a actividade da guerrilha se caracterizar por acções de flagelação e fuga, a verdade é que nalguns casos excepcionais esta começava a defender terreno, como o caso do Morés.

 

Uma ocupação deste tipo de terreno, implicava muitas baixas, e a guerrilha acabaria sempre por fugir e regressar mais tarde.

 

O PAIGC considerava-se invencível nesta mata. 

 

A Operação Jaguar Vermelho

 

A operação "Jaguar Vermelho" (decorreu durante 17 dias de 25/5 a 10/6/1970), iniciou-se com bombardeamentos de artilharia e aviação (napalm), e patrulhas à volta da mata, nomeadamente pela C. Caç. 13, C. Caç. 14, Comandos e Pára-quedistas (durante 15 dias), o seu objectivo era fazer sair da mata mais cerrada os guerrilheiros, e combate-los em terreno mais propicio.

 

As patrulhas

 

Durante os 15 dias em que a mata do Morés foi bombardeada, as nossas patrulhas tiveram confrontos constantes com a guerrilha, pois encontrávamos com frequência pequenos grupos do PAIGC, que faziam igualmente patrulhas, tendo os combates sido mais frequentes na zona de Larom, pois era onde se iniciava a cerrada mata do Morés, ficando a tabanca do Morés a cerca de 5 Kms.

 

As patrulhas que realizamos junto à mata do Morés, provocaram-nos um desgaste físico como nunca tínhamos tido antes.

 

Na primeira patrulha, foi enviado o 2º e o 4º pelotão, estava planeada uma permanência de 10 dias, sem reabastecimento de água ou comida, mas acabamos por regressar ao fim de 7 dias, para nos reabastecer de viveres e munições, dormimos 1 dia no quartel, e regressámos para fazer os restantes 3 dias em falta.

 

1973 Bissorã - Preparação da CCaç. 13, para uma saída em patrulha,

distribuição de rações de combate (6)

 

Era impossível carregar com rações de combate ou água para 10 dias, para além de as rações de combate serem muito pobres na altura (só possuíam latas de atum ou de sardinha, e as de sardinha ainda tinham as escamas), da ração acabávamos apenas por levar alguns pacotes de bolacha Maria, umas latas de atum, as bisnagas com leite condensado, e pouco mais, digamos que o prato especial era atum com bolacha Maria.

 

1970 - Patrulha da C. Caç. 13 a caminho da zona do Morés,

encontrou bananas (caso raro), já temos almoço (2)

 

Quando se acabava a comida, a solução era saciar a fome com mangas, que apanhávamos das arvores, e na sua falta  mastigávamos algumas folhas ou cascas de árvore, quanto à água devido à falta de nascentes, bebíamos muitas vezes a água estagnada das bolanhas. Apesar de tudo isto repartimos sempre o muito pouco que tínhamos, com os prisioneiros que fizemos.

 

Os recontros com guerrilheiros isolados, ou pequenos grupos, não eram preocupantes pois éramos uma força com 2 grupos de combate, cerca de 40 homens, sempre reforçada com mais alguns milícias, mas dado a guerrilha poder mobilizar facilmente forças superiores às nossas, passávamos todo o tempo a caminhar, evitando sermos cercados, só parávamos um pouco para montar emboscadas e descansar, mesmo de noite passávamos parte do tempo a caminhar noite dentro, para não conseguirem seguir o nosso rasto.

 

Foi muito duro caminhar sem parar, carregados, sob um calor abrasador (muito superior a 40 graus), com o suor a correr copiosamente pela cara e pelo corpo, como se estivéssemos debaixo de um chuveiro.

 

Sem apoio logístico, cada um levava o que conseguia carregar, normalmente alguns mantimentos retirados das rações de combate, 2 cantis de água, e muitas munições, pois aqui as munições tinham prioridade, embora em principio fossemos remuniciados se precisássemos, mas não era de fiar, porque no passado já nos tinham dito que não.

 

Espingarda semi-automática Simonov, pelo PAIGC, tem

calibre 7,62, com capacidade para 10 munições

 

Ao fim de alguns dias, o nosso aspecto era sujo, e barbudo, isto e o facto de sermos quase todos africanos, por vezes originava confusões, houve um caso em que um guerrilheiro colocou a arma (uma Simonov) em cima da cabeça e veio ao nosso encontro, pensando que éramos do PAIGC, identificando-se como "à mim Mamadu", ou seja "eu sou o Mamadu", um soldado africano fez-lhe sinal para avançar e disse baixinho "à queres mamar uma, então anda cá", os restantes mantiveram uma posição descontraída, quando Manadu percebeu o seu erro já era tarde, uma rajada a curta distância traçou o seu fim.

 

O Mamadu era apenas a guarda avançada de um grupo, que depois tivemos que confrontar.

 

Uma das vezes capturamos 25 mulheres que viviam no Morés com a guerrilha, o que criou algumas dificuldades logísticas, mas mesmo assim continuamos a repartir a nossa comida, e apesar da alegria de alguns que diziam que iam aproveitar para tirar a barriga de misérias (no aspecto sexual), nenhuma foi molestada, mas o contrário acontecia.

 

1971 - Em patrulha na zona de Bissorã - Furriel Adriano (12)

1971 - Em patrulha na zona de Bissorã - Furriel Fortunato (2)

1971 - Em patrulha na zona de Bissorã, num momento de descanso  - Furriel Adriano (12)

 

Este esforço físico,  provocou um desgaste enorme, principalmente a falta de água, pois tivemos dificuldade em a encontrar, e excepcionalmente foi levado de helicóptero um barril de água para nos reabastecermos, talvez devido aos 11 soldados que desmaiaram devido a insolação, e que foram evacuados para o Hospital Militar de Bissau, os quais eram quase todos africanos habituados aquele calor.

 

Esta operação foi sem dúvida a mais violenta, e meses depois acabaria por continuar a mandar soldados para o hospital, pois os vermes existentes nas águas estagnadas começaram a desenvolver-se no estômago, aparecendo nas fezes e provocando-nos fortes dores de estômago, isto significava que os comprimidos que nos davam para colocar na água para os matar não faziam efeito, os cantis eram cheios com os lenços a servir de filtro, e a maioria em vez de 1 comprimido colocava 2 nos cantis, os quais ficavam 24h sem serem tocados para os comprimidos poderem fazer efeito, e bebíamos apenas do outro cantil.

 

Rebuçados à base de cocaína, ajudaram a resistir nos momentos críticos.

 

Ao fim do dia o cansaço era tanto, que se dormia em qualquer situação, lembro-me de uma noite em que choveu torrencialmente, sem qualquer abrigo (tínhamos escolhido uma zona de capim e arbustos), dormimos mesmo a chover-nos em cima.

 

A ida ao Morés

 

9/6/1970 - Na pista de aviação de Bissorã, a C. Caç. 13 embarca nos helicópteros Allouette III para o Morés (2)

 

Terminado a fase de bombardeamos e de patrulhas junto à mata do Morés, era necessário alguém entrar na mata e reportar a situação, tendo sido escolhidas a C. Caç.13, e uma companhia de páras do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas Nº12 (BCP 12).

 

A 9/6/1970 C. Caç. 13 foi lançada numa bolanha, a oeste da tabanca do Morés, muito perto da barraca central onde estavam as principais forças do PAIGC, e a companhia de páras foi lançada um pouco mais a norte, mas na mesma bolanha.

 

Nesta visita à mítica mata do Morés, pela C. Caç. 13, com 3 grupos de combate, alguns guias e milícias, cerca de 60 a 70 homens, fomos transportados gentilmente nos helicópteros da força aérea.

 

Quando se contou aos soldados africanos que nos iam largar no meio do Morés, largaram todos a rir pois pensaram que era uma piada, eles sabiam do poder da guerrilha no Morés, alguns já lá tinham estado a combater pelo PAIGC, tínhamos até um ex-enfermeiro da guerrilha, mas negavam sempre esse passado.

 

Se antes actuávamos com precaução, nunca falando, não fazendo ruído, deslocando-nos o mais dissimulado possível, sempre que parávamos ficávamos agachados ou deitados no chão,  para evitarmos ser um alvo para os atiradores furtivos, ou detectados pelo inimigo,  o que às vezes era cansativo com aquele deita levanta, desta vez superámo-nos, e as deslocações foram feitas no mais absoluto silêncio, na gíria militar denominado "passo fantasma". 

 

Sabíamos que estávamos em desvantagem, não podíamos contar com apoio aéreo (a mata cerrada, impedia qualquer localização do ar), tínhamos equipamento inferior, estávamos em inferioridade numérica, ninguém nos iria ajudar, o terreno era desconhecido (à muito tempo que ninguém entrava nesta mata), era previsível que o inimigo tentasse cercar-nos e aniquilar-nos.

 

Cinco helicópteros, com capacidade para 5 pessoas cada, levaram a C. Caç. 13, em 3 etapas para o Morés, como é evidente os últimos a chegar tiveram que o fazer debaixo de fogo, pois a posição tinha já sido referenciada pelo IN.

 

1970 - Mapa militar com a localização do Morés,

e das zonas de combate e desembarque de helicóptero, da C. Caç. 13 (2)

 

Americanos saltando de helicóptero no Vietname

Na Guiné normalmente apenas as unidades de elite  utilizavam os helicópteros (7)

Granada  para o morteiro 82, utilizado pelo PAIGC.

Granada inerte porque lhe falta o dispositivo de detonação na ponta (2)

 

Quando o meu grupo (sempre o último) chegou ao local de desembarque (ponta de uma bolanha a oeste da tabanca do Morés), este estava a ser bombardeado por morteiros de 82mm, pelo que o mesmo foi feito debaixo de fogo, o que nos obrigou a saltar dos helicópteros a uma altura considerável, pois os seus pilotos queriam evitar que estes fossem atingidos pelas explosões.

 

Visão de satélite da zona de desembarque de helicóptero dada pelo Google. 

A mancha escura da bolanha destaca-se no verde do mato (2)

 

Após a "aterragem" entramos a correr mato a dentro, para fugir às explosões, e ai seguimos por um trilho que encontramos.

 

Os "páras" foram lançados na mesma bolanha, mas um pouco mais acima, não tivemos contactos com eles.

 

9/6/1970 - Heli leva os "páras" para o Morés (11) 9/6/1970 - Heli dos "páras" aterrando na bolanha (11)

 

No caminho apareceu-nos um miudinho balanta com 4 anos, contrariamente ao que seria de esperar não estava assustado, era falador e mostrava até um certo à vontade, penso que seria por os nossos soldados também serem balantas,  nem percebi se compreendia o que se passava, pareceu-me até contente por já não estar sozinho, disse-nos que estavam ali mais pessoas a recolher óleo de palma, mas que tinham fugido todas e que o tinham deixado sozinho, e que existia uma tabanca mais à frente.

 

   
 

9/6/1970 - Criança encontrada pelos "páras" no mato,

os quais tomaram conta dela, dando-lhe pão, e uma "kalash" (para a foto),

pela foto devia ter uma idade semelhante ao que a CCAÇ 13 também encontrou  (11)

 

 

Dissemos ao miúdo para não sair dali, e seguimos para a tabanca, aquele miúdo de certeza que iria referenciar a nossa posição, quando a guerrilha que vinha atrás de nós, lhe fizesse a mesma pergunta, mas não passou pela cabeça de ninguém fazer-lhe mal, leva-lo também não era opção, ele não conseguia aguentar a caminhada, e leva-lo às costas era demasiado esforço, além do risco que ele ia correr na nossa companhia.

 

Pouco depois ouvimos um tiro, e várias granadas de 82mm voltaram a cair perto de nós, as saídas de morteiro, vinham do outro da bolanha onde tínhamos sido largados, não respondemos ao fogo, mesmo que o quiséssemos fazer era demasiado arriscado, as granadas dos nosso morteiros 60mm, iriam bater nos ramos das arvores, e cair junto de nós.

 

9/6/1970 - Tabanca no Morés, descoberta pelos "páras". Ao fundo uma habitação (11) 9/6/1970 - Tabanca no Morés, descoberta pelos "páras" . Ao centro uma escola (11) 9/6/1970 - Abrigo no Morés, descoberta pelos "páras" (11)

 

 

9/6/1970 - Tabanca no Morés, descoberta pelos "páras". Bem escondida pela vegetação uma habitação (11) 9/6/1970 - Tabanca no Morés, descoberta pelos "páras". Cozinha. (11)

 

Encontramos mais à frente, um acampamento abandonado à pressa, no qual existia um abrigo antiaéreo rudimentar cavado no solo junto a um poilão de grande dimensão.

 

No meio deste acampamento estava uma construção sem paredes, apenas coberta com folhas de palmeira, suportada por alguns troncos, a qual devia servir de escola e de local de reunião, à sua volta outras construções de lama, cobertas com capim serviam de habitação. As fotos tiradas pelos "páras" nesta operação, a um acampamento da guerrilha por eles encontrado no Morés, dão uma ideia clara desses acampamentos.

 

O acampamento era invisível para a aviação, graças à cobertura dada pelas árvores, o chão estava varrido.

 

Após recolhermos algum material, (uma arma, munições, tambores de metralhadoras DP-27), abandonámos  o local e o trilho, seguindo pela densa mata, o que nos obrigou a rastejar ou andar de cocaras, durante quase todo o tempo.

 

O PAIGC dispersou-se pela mata, procurando formar uma linha para bater o terreno, esta disparava rajadas curtas, tentando provocar uma resposta e localizar-nos. Era obvio que pretendia cercar-nos na densa mata.

 

Para não sermos cercados, tínhamos que sair da mata sem disparar um tiro, pois pelo som conseguia-se facilmente distinguir de que tipo de arma é que este foi disparado, e isso iria denunciar a nossa posição, o que nos seria fatal dada a desproporção das forças em presença, assim foi dada ordem que apenas poderíamos utilizar facas para lutar.

 

O facto de fechar o fim da nossa coluna, colocou-me a mim e aos soldados que ai vinham, uma situação muito delicada, pois por diversas vezes ouvíamos o som inconfundível das "costureirinhas" por perto, e as balas a assobiarem junto às nossas cabeças.

 

Sabre/Baioneta para a G3, modelo português, raramente distribuída pelas NT (2)

 

Dei ao último homem da coluna a missão de ir disfarçando o nosso rasto, o que ele fez habilmente com um ramo.

 

Pouco depois um dos soldados que ia à minha frente disse-me a sorrir, que um dos grupos de "turras" que vinha muito perto de nós, nos tinham passado à frente sem nos ver, e que agora íamos nós atrás deles, era a melhor maneira de não sermos detectados.

 

Felizmente conseguimos sair do interior da densa mata sem sermos detectados, tendo os combates sido travados já numa zona menos densa da mata. Um dos grupos que nos seguia de perto, caiu logo na nossa primeira emboscada (descrita a seguir), eram apenas 6 elementos, mas esta acção denunciou a nossa localização, e deu tempo a outro grupo de nos emboscar logo a seguir.

 

Apercebi-me que o soldado do meu pelotão a quem estava confiado o morteiro se tinha deixado ficar para trás, pelo que fui ao fim da coluna saber qual era o problema, explicou-me que tinha estado a abotoar a bota, dei-lhe ordem para retomar a posição, mas nesse momento paramos.

 

Estávamos a atravessar uma clareira, era um terreno de cultivo, provavelmente milho, o resto da coluna tinha entrado no capim, e estava dissimulada no mesmo, apenas eu que vinha em último, tinha ficado ali totalmente a descoberto, na clareira.

 

Quando me preparava para me reposicionar, o homem do morteiro fez-me um sinal, para olhar para o lado oposto.

 

Um grupo de 6 elementos, surgia do capim e caminhava directamente ao encontro dos soldados emboscados do outro lado da clareira (2 pelotões), à sua direita estava eu, iam cair numa emboscada com fogo de frente, e do flanco direito.

 

Nunca tinha tido um alvo tão nítido, e apenas a 30 m de distância, praticamente sem me mover limitei-me a apontar ajoelhado.  O ultimo da coluna tinha apenas um saco, os restantes estavam armados, seleccionei como alvo o penúltimo, que tinha uma AK 47, calculando que os da frente, seriam mais facilmente eliminados, apenas havia que deixar que estes entrassem na zona da morte. 

 

Um tiro disparado da frente da coluna, alertou os guerrilheiros, que pararam e olharam com mais atenção para a frente, acabando por perceber que estavam a cair numa emboscada, disparei um tiro, mas saiu uma rajada, e o guerrilheiro foi projectado com o impacto para o lado oposto, mas o disparo não foi mortal, pois conseguiu recuperar o equilíbrio, e recuar abrigando-se num grupo de palmeiras, bem como os restantes elementos.

 

   
 

1970 - Guerrilheiro com pistola,

aparentemente uma Tokarev TT33 de 7,62mm (1)

1970 - Guerrilheiro com AK 47 (1)  

 

Percebi que a G3 se tinha avariado e apenas disparava em rajada, o que me dificultava a precisão dos tiros. Abrigado atrás da palmeira, o guerrilheiro ferido, resolveu pagar na mesma moeda o meu tiro, e fez pontaria cuidadosamente na minha direcção, mas antes de ele o conseguir concluir, voltei a disparar na sua direcção, obrigando-o a abrigar-se melhor.

 

Os dois pelotões que estavam emboscados no capim disparavam furiosamente, mas mesmo assim fiquei surpreendido de nenhum dos guerrilheiros ter ficado logo morto, dado não estarem a mais de 20m de distância de nós.

 

Uma restolhada de algo a atravessar as folhas dos troncos de uma árvore que estavam por cima da minha cabeça, alertou-se que uma possível granada de morteiro, que me iria cair em cima, larguei a arma e cobri a cabeça com os braços, com a certeza de que ia ser atingido.

 

A granada caiu mesmo ao meu lado a cerca de 0,5m, teria sido mortal se aquele terreno, não fosse um terreno de cultivo recente, pois apanhando terreno muito macio a granada não rebentou logo e enterrou-se no solo, o qual absorveu a sua explosão e os estilhaços.

 

Este fogo de morteiro obrigou-me a dar uma folga aos guerrilheiros, e o rebentamento chamou mais a atenção para a minha posição, assim vi-me sobre a mira de duas AK 47,  uma era do guerrilheiro que vinha à frente da coluna e estava agora abrigado atrás de uma palmeira que o protegia do fogo de frente, mas não o suficiente para se conseguir colocar em boa posição de tiro, sobre a minha posição sem correr riscos, o segundo do guerrilheiro que tinha ferido, o qual bem protegido com uma palmeira de frente e outra de lado, fazia pontaria mas muito escondido.

 

Apontei rapidamente e em tiro instintivo disparei contra o primeiro guerrilheiro, que estava totalmente a descoberto, pois este parecia mais determinado a mandar-me para o outro mundo, expondo ao fogo da frente o braço esquerdo que apoiava a AK, apenas para conseguir fazer um bom tiro, assim disparei rápido para evitar que este pudesse concluir o tiro; o disparo atingiu-o pois fê-lo desequilibrar-se para o lado oposto, mas não foi mortal, porque se conseguiu equilibrar e fugir para o capim de onde tinha vindo, e o resto do grupo seguiu-o, debaixo de uma chuva de balas.

 

Tentei localizar as saídas das granadas de morteiro, para responder às mesmas, mas  apercebi-me que os "pofs" da saída vinham da frente da nossa coluna, eram  rebentamentos do morteiro 60mm, e ocorriam num circulo à volta, do local de saída, como não existia outro fogo de resposta na frente da coluna, conclui que devia ser "fogo amigo".

 

Fui falar com o alferes Joshua, sobre o que se tinha passado para da frente da coluna dispararem contra nós, explicou-se que tínhamos ido ao encontro de dois pelotões de "periquitos", que andavam por ali. Tinha sido um deles que tinha disparado granadas em todas as direcções.

 

Já a noite ia alta quando parámos para dormir (continuávamos a andar durante parte da noite para ser mais difícil seguir o nosso rasto), no meio de uma zona com bastante vegetação, em Larom, o sono profundo era breve, pois havia sempre uma sensação de perigo.

 

Hiena (8)                                Leopardo (9)

 

Era uma noite muito escura. A meio do sono fui acordado por uma sensação de perigo, sem me mexer apurei o ouvido, e um ligeiro ruído de passos leves e muito vagarosos atrás de mim, alertou-me para um animal que se aproximava, olhei para o vigia que estava mesmo a meu lado, e pelo seu vulto percebi que olhava fixamente na direcção do ruído, mas nada fazia ... e o animal aproximava-se cada vez mais de mim, pelo ruído devia estar mesmo muito perto.

 

Lentamente tacteei à procura da G3, destravei-a e virei-me para disparar, mas na mesma altura o vigia fez ruído mexendo com as mão nas folhas secas que cobriam o chão, e o animal deu um salto no ar e desapareceu na escuridão.

 

Estava apenas a um metro de mim, mas estava demasiado escuro e só consegui vislumbrar um vulto indefinido, seria provavelmente uma hiena, mas para dar aquele salto talvez fosse um leopardo, o que quer que fosse vinha à procura de jantar.

 

O vigia disse-me sorrindo "Este vinha comer o furriel", furioso perguntei-lhe porque tinha deixado o animal aproximar-se tanto, respondeu-me que era para ver o que era ...

 

  
1970 - Peças de fardamento do PAIG, capturadas durante os confrontos (2)

 

Depois de mais uma noite dormida em Larom, no dia seguinte conforme planeado, ao raiar do sol iniciamos a marcha de regresso a Bissorã, estávamos absolutamente arrasados com operação, e a marcha foi penosa, deslocamo-nos primeiro em direcção a Dandu, e pelo caminho passou por nós uma avioneta, que nos confirmou que podíamos regressar, devendo aguardar em Mansabadim a ordem de regresso a Bissorã, a qual nos seria dada ao meio dia.

 

Ao meio dia conforme planeado apareceu a avioneta, e com ela um sorriso de alegria em todos os rostos, finalmente tinha chegado o fim da operação e podíamos regressar.

 

O Alferes Pimenta que comandava a coluna correu para uma pequena bolanha, onde colocou um pano vermelho sinalizando a nossa posição, e entrou em contacto pela rádio com a avioneta, mas a fúria com que ficou, deu logo para perceber que eram más noticias.

 

Morés - 9/6/1970 - Apito utilizado pelos comandantes do PAIGC, para dar ordens durante os combates (2) Morés - 9/6/1970 - Seringa, utilizada pelo PAIGC (2)

 

Foi-nos dado ordem para voltarmos para trás e regressarmos a Dandu, o comando das operações tinha mudado, agora não era um major, mas um coronel que dava as ordens, e era evidente ter havido alguma descoordenação com a passagem de comando, sem água e sem comida (não era suposto continuarmos ali), absolutamente arrasados, lá nos arrastamos debaixo de um sol abrasador para Dandu, e ficamos a aguardar.

 

As horas foram passando, e a fome e a sede apertando, não havia ali nada que se pudesse comer ou beber, e ninguém tinha previsto ficar ali tanto tempo, apenas  o humor se mantinha, ninguém encontrava justificação para nos manterem ali, uns diziam que se tinham esquecido de nós, outros que o coronel está a comer um grande almoço e que só depois é que nos mandava regressar, outros diziam que era só depois dele dormir a sesta.

 

Finalmente pelas 16h30, chega a ordem de que podemos regressar, e lá iniciamos a penosa caminhada de regresso a Bissorã, que nos parecia tão longínqua, apesar de estar apenas a 10 Kms (do centro de Bissorã até à tabanca do Morés em linha recta eram 20 Kms, e até Dandu 10 Kms), pelo caminho passamos por uma poço que existia em Mansabadim, onde saciámos a sede, e enchemos os cantis.

 

A primeira coisa que fizemos no regresso foi tomar um banho, a água fria do chuveiro teve um sabor inesquecível, que só quem passou o calor e a sede que passamos consegue perceber.

 

        

Morés - 9/6/1970 - Algumas páginas do livro da escola primária do PAIGC (2)

 

O saldo final foram 10 combates, em que morreram vários combatentes do PAIGC, e foi capturado algum material e armamento, da nossa parte apenas alguns doentes pelo desgaste da operação. 

 

9/6/1970 - Armas capturadas pelo "páras"

durante a operação "Jaguar Vermelho" (11)

 

Apenas uma palavra final de elogio, aos soldados africanos que serviram lealmente ao nosso lado, e que se distinguiram sempre pela sua extraordinária coragem, como o soldado Calabouche do meu pelotão, de que passo a relatar um episódio ocorrido nesta operação:

 

Atravessávamos uma pequena bolanha a norte de Larom, a qual estava seca formando uma clareira, o terreno era ligeiramente inclinado e rodeado de alta vegetação, os guerrilheiros estavam emboscados na orla mais alta, sabíamos que eles estavam por perto, e eles sabiam que nós vínhamos a caminho, quer pelos tiros dos confrontos anteriores, quer pela rajada de G3 que deviam ter ouvido um pouco antes, quando eliminamos à queima roupa um vigia com uma "Simonov", que se aproximou demasiado, do trilho que seguíamos. 

 

A guerrilha deixou passar todos os Grupos de Combate pela pequena clareira, com excepção dos 3 últimos homens, que vinham atrás de mim, e mal entrei no capim deu-se o ataque.

 

   
  Degtyarev DP-27, calibre 7,62 (5) 1970 - Guerrilheiro com RPG - 7 (1)  

 

 Os 3 soldados que ficaram na clareira, estavam totalmente a descoberto, o que os tornava um alvo fácil, tentei voltar para trás para os apoiar, mas o fogo de uma metralhadora ligeira (penso que era uma DP-27) concentrou-se onde eu estava, e só ouvia zumbidos de balas e vegetação a partir-se à minha volta, rastejei de modo a regressar à bolanha onde estavam os 3 soldados para os poder ajudar, uma granada de RPG rebentou ao meu lado, os soldados respondiam ao ataque em clara inferioridade como facilmente se percebia pelo som dos disparos.

 

1970 - Calabouche soldado do 4º pelotão da C. Caç. 13,

atirador exímio com a bazuca (2)

 

Quando cheguei à bolanha o Calabouche já estava lá, apercebendo-se da situação ele tinha regressado rapidamente à bolanha, recolhendo pelo caminho algumas granadas de bazuca, e ai de peito a descoberto fez frente aos guerrilheiros, exímio atirador de bazuca, aquela distancia não falhava um tiro, e arrasou as posições inimigas, indiferente aos disparos que faziam contra ele. Foi contemplado com o Prémio Governador da Guiné pela sua acção, e morto pelo PAIGC após a independência.

 

Diário de Noticias - Calaboche

distinguido com o Prémio Governador da Guiné

 

 


 

 

Publicado no site em 24/02/2003, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato

Crónica de Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13

 

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