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Defesa de Missirã - 1970

Em Junho de 1970, regressamos novamente a Bissorã, onde nos disseram que íamos ficar sedeados, passando a fazer parte da guarnição deste aquartelamento. Esta mudança permitiu termos finalmente instalações adequadas para podermos descansar, e outras condições de alimentação, mas o elevado esforço de intervenção em termos de patrulhas ou operações, manteve-se.
 

   
  1970 - Bissorã - Abrigo existente na Outra Banda, muito semelhante ao existente em Missirã, só que o de Missirã tinha 2 entradas, e menos vigias (4)  

 

 

A norte de Bissorã havia um pequeno posto avançado (Posto avançado de Missirã), tratava-se de um pequeno abrigo em cimento para meia dúzia de camas, com 2 vigias para o lado do mato e duas aberturas para o lado contrário, que serviam de portas.

À esquerda do posto corria o rio Armada, à sua direita a estrada para Barro (desactivada devido a acção da guerrilha), e à sua frente mata, um pequeno riacho e bolanhas. O posto ficava afastado do centro da vila (cerca de 4 minutos de camioneta, do local onde estava aquartelada a C. Caç. 13), mas as tabancas da população iam até ali.

A sua defesa apresentava alguns riscos dados os poucos soldados ai sedeados, mas tinha a seu favor o facto de nunca ter sido atacado, pois a guerrilha preferia sempre atacar a Outra Banda, talvez porque queriam repetir o sucesso que tinham tido no passado ao conseguirem por momentos controlar essa área, talvez porque proporcionava aos guerrilheiros melhores acessos, e mais vias de fuga.

Duas secções do 4º pelotão (7 homens) e 1 furriel, reforçadas por 5 milícias mais o seu comandante, foram as primeiras unidades da C. Caç.13 destacadas para defender o referido posto, durante 2 semanas depois seriam rendidos, por outros elementos da companhia.


Metralhadora Browning M2HB (3)


Numa das vigias do abrigo estava, uma metralhadora Browning M2HB, que permitia cobrir parte da frente e parte do flanco direito, tratava-se de arma de calibre .50 (12,7 mm), que tinha uma cadência de tiro de 400 a 600 tiros p/minuto, possuía um carregador tipo fita de metal, e um peso total de 58,15 Kgs., junto à mesma um cartaz bem visível, proibia expressamente fazer qualquer tiro com a mesma excepto em caso de ataque. Existiam ainda duas pequenas trincheiras uma junto ao abrigo, e outra no flanco direito.

Os milícias defendiam normalmente o flanco esquerdo, e a tropa a frente e o flanco direito.

Uma breve inspecção ao local, feita com todos os soldados, permitiu conhecer que as defesas estavam num estado lastimoso.

O mato e o capim cresciam junto ao arame farpado, permitindo uma progressão não detectada até ao mesmo, não existia nenhum sistema de iluminação que permitisse inspeccionar a zona; um baga baga do lado de fora do arame permitia protecção a um atirador de RPG, colocando-o a cerca de 10 m do pequeno abrigo de cimento, o que significava que poderia disparar granadas de RPG, para dentro do posto através das vigias; os postes que seguravam o arame farpado, tinham sido comidos pela bicharada e desfaziam-me ao mais pequeno toque.

A rotina devia estar instalada, e o posicionamento das sentinelas devia ser conhecido, pela população e provavelmente pela guerrilha, pois no flanco direito o arame estava forçado, e as entradas e saídas eram tantas por ali, que já existia um trilho bem nítido, este movimento era feito à noite, pois de dia o portão estava aberto, permitindo o livre movimento.



Mauser

 

Quanto às milícias apenas se tinham apresentado 2 milícias com umas velhinhas espingardas mauser, ninguém sabia do Sitafá que era o chefe daquele grupo de milícias, nem dos restantes milícias.

A conclusão é que se a guerrilha quisesse, poderia entrar por ali com a maior das facilidades, nomeadamente pelo flanco esquerdo, que era o mais desprotegido.

Reuni com os soldados, e perguntei-lhes como pensavam que a guerrilha atacaria num caso destes.

A resposta foi que iriam entrar pelo flanco esquerdo e cercar o posto, eliminar quem estiver lá dentro com tiros de RPG, através das vigias e das portas, quem saísse seria facilmente morto antes de chegar à trincheira, e iriam levar a metralhadora browning, para distrair alguns guerrilheiros atacariam também outros locais, como por exemplo a Outra Banda, isto iria gerar a confusão e não permitir a rápida percepção para onde se deveriam enviar reforços, seria um ataque rápido, quando se percebesse o que se passava realmente já seria tarde.

Além do referido anteriormente, os soldados ainda acrescentaram que os milícias iriam fugir e não poderíamos contar com eles, provavelmente nem tinham balas, porque as gastavam na caça, mas não o diziam porque estavam proibidos de usar as armas para caçar.

Face a esta situação todos referiram que iriam dormir no chão dentro das trincheiras, porque lhes dava maior possibilidade de defesa e reacção, apesar de isso significar dispensar a confortável cama existente no posto, e a rede mosquiteira, que os protegeria dos inúmeros mosquitos que saiam à noite à procura do jantar.

Apesar de conhecer bem a grande capacidade de combatente dos soldados africanos, fiquei impressionado com a capacidade e facilidade com que tinham formulado um plano eficaz de ataque. Fui verificar quantas balas tinham os milícias, um tinha 2 balas e outro 3, e quando lhes perguntei o que fariam em caso de ataque, responderam, que davam um tiro para o ar e fugiam, embora eu acreditasse mais na versão dos soldados, que eles primeiro fugiam e depois davam um tiro.

Considerando que a milícia na verdade não tinha qualquer possibilidade de conseguir defender o flanco esquerdo, pois na prática existiria lá apenas um homem (tinham que se refazer na vigia, assim um estaria lá de sentinela, enquanto o outro dormia na trincheira), dei-lhes instruções para em caso de avistarem o inimigo, ou em caso de ataque, se deslocarem para a nossa posição mais recuada, e defenderem ai posição, pareceram agradados com a ideia, e na verdade era a melhor posição para defender e a que permitia uma retirada fácil.

Dado que corrigir todas as falhas da defesa era impossível, estabeleci um plano para a melhoria do sistema de defesa, assim naquele dia iríamos reforçar as partes do arame farpado, onde este estava destruído ou forçado, iniciar a abertura de novas trincheiras, e aproveitar a sua areia para colocarmos uma fileira de bidões à saída de uma das portas de modo a conseguirmos entrar e sair do posto em segurança.

A fila de bidons terminava num circulo, onde instalamos um morteiro para bater o flanco esquerdo, 20 granadas de morteiro em circulo, a que já se tinha retirado a cavilha de segura, permitiriam responder com uma chuva de granadas, não era seguro ter granadas sem cavilhas, mas tínhamos que arriscar, pois tínhamos que travar a guerrilha em poucos minutos.

Deitámos mãos à obra como se o ataque se fosse dar nesse dia, e ao fim do dia tinha nascido uma nova e longa trincheira, que vinha desde o abrigo e corria ao lado da estrada, permitindo travar as infiltrações do flanco esquerdo, evitar sermos cercados. No flanco direito, nasceu outra, cobrindo melhor a área onde tínhamos detectado as infiltrações, para além de permitir um posicionamento que cobria melhor a nossa retaguarda e lhes dava uma posição alternativa à existente.

Aquele documento que quase proibia disparar com a browning intrigava-me, porque é que tinham tanto medo que alguém fizesse um disparo, será que a arma funcionava …, e resolvi desmontar a arma.

Facilmente cheguei à conclusão que a browning jamais dispararia um tiro, pois tinha o percutor partido ao meio, e só lá estava metade do mesmo.

O facto de só estar metade do percutor, significava que alguém sabia que aquela nunca dispararia, não podia ser coisa de um soldado que apenas aprendia a desmontar a G3, isto devia ter envolvido um especialista e provavelmente a decisão de um graduado, provavelmente devia achar que a browning ali era um factor de dissuasão, só que não queria ser eu, a ter aquele factor de dissuasão para me defender, quando me apontassem uma arma.

Esclarecido o caso despachei a browning pedindo a sua reparação, e no seu lugar coloquei uma metralhadora ligeira HK 21, (calibre 7,62 mm, com uma cadência de tiro de 850 tiros p/minuto, e um peso total de 9,3 kgs), dado tratar-se de uma arma metralhadora ligeira, poderíamos facilmente desloca-la para onde fosse mais necessária.

A HK 21 tinha uma elevada cadência de tiro, e era uma boa arma, contudo encravava frequentemente, o motivo era porque ao mover a arma da esquerda para a direita, a fita de alimentação da arma não ficava direita e esta encravava, era necessário faze-lo com cuidado, e com o braço ajudar a manter a fita direita, mas mesmo sabendo isso, às vezes falhava devido à movimentação exigida pelo combate.


1970 - HK 21 modificada pela C. Caç. 13 (1)


À boa maneira portuguesa tínhamos já resolvido o problema da HK 21, eu tinha desenhado um tambor para colocar a fita, inspirado nas armas russas, e o furriel Tavares tinha concretizado o projecto utilizando o pouco material que conseguiu encontrar, o resultado foi excelente e a arma nunca encravava.

Esta “versão” da HK 21, também tinha os seus problemas, pois nas longas deslocações no mato era incómoda para quem a transportava, dado colocar demasiado peso num só lado, mas era uma excelente solução quando se estava na defesa de um aquartelamento, como era aquele caso.
 

1980 - Metralhadora HK 21 E (2)


Recentemente acabei por verificar que existiram soluções na HK 21 para resolver o mesmo problema, como o caso da HK 21E, fabricada a partir dos anos 80, embora com um sistema de alimentação diferente.

Remuniciei os milícias com mais munições, mas guardei a maior parte no posto, informando-os que em caso de ataque se necessitassem de mais as poderiam ir buscar.


Granada de mão ofensiva de instrução M/62, cor azul claro, composição areia, não tem raio de acção.

A Granada de mão ofensiva M/62 é igual à de instrução,  só que tem cor  verde azeitona, composição 190 gramas de T.N.T., raio de acção 10 a 15 metros. A granada incendiária tem idêntico formato, mas é de cor vermelha (1)


Resolvi transformar a ameaça do capim a nosso favor, e distribui granadas de mão incendiárias (granadas de fósforo) pelos soldados, com as quais poderíamos incendiar o capim, o que impediria a passagem dos guerrilheiros e nos daria visibilidade sobre o que se passava.

Foi um dia cansativo, mas havia um sorriso de satisfação na cara de todos pelo trabalho feito, principalmente pela maior mobilidade que agora dispúnhamos sem correr riscos, embora as trincheiras ainda não estivessem totalmente terminadas.

Pessoalmente estava satisfeito com as modificações, porque sabia que os informadores da guerrilha iriam reportar que tinham sido feitas alterações ao sistema defensivo, e isto por si só poderia travar um ataque ousado, pois esta iria agora tentar perceber o que se estava a passar.

Era quase noite, quando o chefe dos milícias chegou, trazia uma G3 que foi colocar no abrigo, fiquei satisfeito por termos mais uma arma de jeito.

O chefe do grupo de milícias veio ter comigo e cumprimentou-me, mas como não justificou o atraso de 8 horas, perguntei-lhe o porquê do mesmo, e disse-lhe que tinha que ir chamar os três milícias em falta.

Perante a minha surpresa, respondeu-me que não percebia porque eu lhe estava a criar problemas, pois os soldados da companhia anterior passavam ali o tempo a embriagar-se. Face a tão descabida resposta, dei-lhe ordem para cumprir imediatamente o que lhe tinha pedido, e respondeu-me agressivamente aos gritos, mas no segundo seguinte estava a voar devido à cronhada que apanhou nos queixos.

Levantou-se e dirigiu-se para o abrigo, onde não estava ninguém, e nada tinha de seu a não ser a sua G3, coloquei a minha em posição de rajada, e fiquei atento às duas portas do abrigo, mas deve ter pensado melhor, pois saiu sem a G3, e dirigiu-se para o centro da vila.

Pouco tempo depois apareceu-me um jipe com o major que comandava o batalhão, não respondeu à minha continência e foi logo direito ao assunto, questionando-me se tinha batido num dos seus comandantes da milícia.

Percebi pelo tom e pelos “seus comandantes”, que o major fazia do assunto um caso pessoal, ao mesmo tempo que "promovia" o chefe daquele grupo a comandante, expliquei-lhe o que se tinha passado, e que "comandante" da milícia, me tinha faltado ao respeito, era indisciplinado e não tinha cumprido a ordem que lhe tinha dado, e que poderia confirmar o que lhe tinha tido junto dos soldados e dos milícias que tinham assistido a tudo, se quisesse fazia um relatório do ocorrido.

O major olhou em volta à procura de algo que me pudesse tramar, foi então que viu as novas trincheiras e o morteiro, virou-se para furioso, e afirmou que não devia estar ali nenhum morteiro, e questionou-me sobre quem tinha mandado colocar ali um morteiro.

Respondi-lhe que eu era o responsável, pelas alterações, relatei-lhe em que estado estava o sistema defensivo, e expliquei-lhe em que o morteiro era para defender o flanco esquerdo, mas respondeu-me que os obuses é que iriam bater aquela zona, respondi-lhe que se dessem ordem para os obuses disparem para ali, as granadas iriam atingir primeiro as tabancas, pois não tinham ângulo de tiro para o fazer, até porque devido ao declive para o rio aquela zona era mais baixa do que o local onde estavam as tabancas.

Sem me responder dirigiu-se ao abrigo, onde teve mais um ataque de fúria, quando viu que tinha substituído a browning pela HK 21, expliquei-lhe que a browning estava avariada, e ai vi na sua cara um “finalmente apanhei-te, tentas-te disparar a browinig, vais apanhar uma porrada”, e questionou-me se eu não sabia que era proibido disparar a browning, respondi-lhe que a minha especialidade eram armas pesadas, e me bastou desmonta-la para verificar que estava avariada.

Achei estranho o major saber da existência daquele cartaz sobre a browning, estava escuro como breu, e ele não o podia ver e muito menos ler, será que seria ele o seu autor …

O major resmungou que tinha enviado à dois dias os planos de defesa para Bissau, e como é que agora explicava que os tinha que mudado passados dois dias. Achei incrível estar preocupado com os planos e não querer saber de tudo o resto que lhe tinha relatado.

Sem conseguir arranjar motivos para me pregar uma “porrada”, o comandante disse que o sistema de defesa podia ficar assim, e disparou o usual “ Desta vez passa mas para a próxima leva uma porrada.”, e foi-se embora.

A meio da noite um soldado vem alertar-me que estavam a tentar passar o arame farpado, no local do trilho de infiltração, tentando destruir o reforço que tínhamos feito ao arame, quando fui observar o que se passava, os intrusos deram-se ao atrevimento de acender uma luz, pelo que disparei um tiro de intimidação para o local.

O major que não devia estar a dormir, ligou-me imediatamente pelo rádio para saber o que se passava, informei-o que tinham tentado passar o arame farpado, ao que me respondeu que ia mandar os obuses bater a zona, junto ao arame farpado.

Fiquei aflito, porque embora os soldados se pudessem proteger nas trincheira, o mesmo não ia acontecer com a população.

Tinha que lhe dizer alguma coisa que o fizesse parar, já lhe tinha explicado anteriormente que ia atingir as frágeis tabancas com aquele bombardeamento, que mais não fosse com os estilhaços dos obuses pois elas estavam apenas a uns 30 metros do arame farpado.

Para o convencer a não disparar, disse-lhe que não valia a pena porque não detectávamos mais movimentos e que até podia ser apenas um elemento da população a tentar passar, ai o major ficou furioso, e disse-me que eu não podia disparar contra a população.

Achei curiosa a preocupação, eu não poder fazer um tiro de intimidação, e ele preparava-se para dar uma ordem que mataria dezenas ou centenas de homens, mulheres e crianças, desprezando o alerta que eu lhe tinha feito.

Perguntei-lhe então:
- Meu major, como posso eu saber quem está a tentar passar o arame farpado?
A resposta que deu é difícil de acreditar:
- Você vai ao arame farpado e pergunta! Vá lá e pergunte, e se a resposta for que é um elemento da população abra o portão para ele entrar. Eu fico à espera para saber.

O meu pensamento foi, este homem é louco, porque se não for da população a resposta que levo é um tiro, mas nem valia a pena argumentar mais nada.

Respondi-lhe que sim, que ia ao arame farpado ver o que se passava, e depois de um período de espera, simulando uma deslocação comuniquei-lhe que ninguém respondia, e o assunto lá ficou encerrado.

No dia seguinte o capitão Durão, que comandava a minha companhia veio avisar-me para ter cuidado com o major, porque ele estava a preparar-se para me dar uma “porrada”.
 

A outra secção da C. Caç. 13 que nos rendeu em Missirã, contrariando as previsões dos que diziam que ali nada aconteceria, seria atacada poucos dias depois, a 19 de Junho, mas nessa altura já estávamos preparados, pelo que foi uma flagelação sem consequências.
 


 

Publicado em 21/05/2006 e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato

Crónica de Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13

(1) Fotos de Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13

(2) Fotos do site http://www.hkpro.com/

(3) Fotos do site http://world.guns.ru/

(4) Fotos de Adriano SIlva, ex-furriel da CCaç. 13

 


 

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