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Jagali - 1/1971

 

1969 - Alouette III, com canhão lateral de calibre 20 mm, designado por heli-canhão, e na gíria por "Lobo Mau" (1)

1971  - Munição do heli-canhão - calibre 20 mm, com um comprimento de 136mm.

Munição da G3 - calibre 7,62 mm, com um comprimento de 57 mm.

Munição da AK-47 - calibre 7,62, com um comprimento de  36 mm (2)

 

No inicio de 1971 ou talvez no fim de 1970, não consiga precisar a data, a CCaç 13 deslocou-se numa acção ofensiva a Jagali, o grupo era constituído pelo 2º pelotão comandado pelo alferes Matos e o 4º pelotão comandado pelo alferes Joshua, O capitão Durão comandante da companhia. acompanhou também esta operação.

 

Jagali fica a norte perto do rio Cacheu, depois de passarmos o rio Blassar, o local para onde nos dirigi-mos pareceu-me ser na zona de Jagali Balanta, creio que deve ter existido uma informação muito precisa, pois fomos directamente ao acampamento inimigo.

 

Era uma zona onde nunca tínhamos ido, lembro-me de apenas ter ido até ao rio Blassar, junto à estrada para Barro e minar  a passagem para quem quisesse continuar mais para norte.

 

Foi uma caminhada longa pela mata, em que a chegada a uma zona de cultivo nos alertou para a proximidade do inimigo, o qual surgiu de imediato numa das pontas da zona de cultivo.

 

O grupo de guerrilheiro era bem visível, e não detectou a nossa força de combate, que estava escondida na vegetação circundante ao campo cultivado.

 

Era um grupo de 5 guerrilheiros, em que apenas o primeiro estava armado com uma AK47, tinha uma camisa e um boné do exercito do PAIGC, e caminhava por um caminho que passava à nossa retaguarda, peguei num grupo de 4 homens e dirigi-me rápida mas silenciosamente para os interceptar, mas estes mudaram de direcção, e dirigiram-se para onde estavam escondidos os restantes elementos das nossas forças.

 

Devido à vegetação não me apercebi da mudança de direcção dos guerrilheiros, e incrivelmente cruzei-me com eles, passando a 0,5 m, no máximo 1 m de distancia, mas o capim cerrado e o facto de ambos nos deslocarmos silenciosamente não permitiu a sua e a nossa detecção.

 

Só quando cheguei ao cruzamento do meu caminho com o caminho por onde vinham os guerrilheiros, fiquei surpreendido por não os encontrar, e espreitei para a zona cultivada à sua procura, e detectei-os novamente junto ao resto das nossas forças, nesse mesmo momento os guerrilheiros detectaram as nossas tropas, e largaram a correr fugindo para o local onde nos encontrava-mos perseguidos por uma chuva de balas.

 

 

 
  1971 - Em patrulha na zona de Bissorã - Furriel Fortunato (2)  

 

Escondemo-nos e aguardamos a sua chegada atrás das árvores, com as G3 em posição de rajada, e quando entraram todos juntos 5 m à nossa frente, abrimos fogo em simultâneo, e estes tombaram de imediato, sem dispararem sequer um tiro.

 

O capim ali era baixo, dávamos pela cintura, mas era suficiente para os encobrir, fiz sinal a um soldado para me acompanhar, a fim de os contornarmos pelo flanco direito,  onde teria visibilidade, e poderíamos eliminar algum elemento que tivesse ficado apenas ferido, pois se ele tivesse apanhado a AK47 seria ainda um perigo, mas nesse momento o resto da nossa coluna colocou-se em marcha.

 

Pedi aos soldados para manterem as posições, e corri a falar com o alferes Joshua para o avisar, que ficaria um pouco para trás a fim de capturar a arma do guerrilheiro, mas o alferes disse-me para regressar com os homens, pois o acampamento era já ali em frente, e não queria perder a ligação, além disso tinha problemas de contacto com o 2º pelotão, pois não possuía rádio para o fazer.

 

Os guerrilheiros alertados com os tiros tinham deixado um pequeno grupo emboscado junto ao acampamento a fim de ganharem tempo, enquanto o grosso da guerrilha se deslocava para nos montar uma emboscada mais à frente.

 

O furriel Tavares era o homem da metralhadora (HK21) do 2º pelotão, e quando se deslocou em direcção ao acampamento, percebeu que havia guerrilheiros emboscados na mata, apenas a uns 7 metros de nós, pois viu um deles também com uma metralhadora fazendo mira para ele, mas não dando a perceber que o tinha detectado continuou a andar, ao mesmo tempo que posicionava disfarçadamente a sua metralhadora para conseguir atingir o guerrilheiro, é um daqueles momentos em que é preciso muito sangue frio, e muita coragem, pois iria sobreviver quem disparasse primeiro, e foi o Tavares que com uma certeira rajada eliminou o guerrilheiro, não lhe dando hipótese de disparar, a partir daí deu-se uma breve troca de tiros.

 

Um milícia ficou ferido, e foi chamado um heli para o evacuar, o Mendonça outro furriel do meu pelotão veio ter comigo, a sua arma tinha deixado de disparar, desmontei-a rapidamente e percebi que a peça que armava o cão se tinha partido, armei-lhe o cão manualmente, e disse-lhe que a arma agora iria disparar, mas só a bala que tinha na câmara.

 

O ferido foi evacuado, e iniciamos a viagem de regresso, nessa altura chegou um aviso via rádio do heli-canhão que tinha vindo a acompanhar o heli para transporte do ferido, dizendo-nos que um numeroso grupo se tinha posicionado do lado oposto da bolanha que iríamos atravessar, montando-nos uma emboscada.

 

Estávamos realmente uma situação difícil, pois iríamos atravessar campo aberto, e a bolanha tinha água, o que significava que não nos podíamos abrigar ou mover rapidamente, mas a guerrilha estava abrigada atrás das árvores, iriam deixar-nos avançar até entramos na "zona da morte", e depois era uma caça aos patos.

 

Não sei quais os motivos que levaram a manter a decisão de avançar mesmo sabendo que íamos ser emboscados, talvez porque o confronto parecia inevitável, e se mudássemos para outro caminho, iriam emboscarmos noutro lugar qualquer, ali pelo menos não nos apanhavam de surpresa, pois já sabíamos onde eles estavam, e da nossa margem da bolanha podíamos bater a outra margem com o morteiro, e com a bazuca, e das 2 metralhadoras  HK21 que levávamos, poderíamos também dar alguma cobertura ao 2º pelotão, o qual seria o primeiro grupo a atravessasse a bolanha.

 

O piloto do heli-canhão tomou então uma decisão extremamente corajosa, e mesmo antes de chegarmos à bolanha, posicionou-se por trás dos guerrilheiro, e enfrentou-os sozinho.

 

 

 
 

Guiné 68/69/70 - Pode vêr o "LoboMau" em acção neste vídeo feito pelo Jorge Félix ex-alferes piloto aviador

http://www.youtube.com/watch?v=Ka6ZcJhu_34  (3)

 

 

A metralhadora do heli-canhão era uma arma extraordinária, com um poder de fogo enorme, pelo que na gíria chamávamos ao heli canhão de "Lobo Mau", mas o atirador da metralhadora do heli não tinha qualquer protecção, e o heli (um Alouette III) também poderia ser abatido pelo fogo da guerrilha.

 

Perante a coragem e poder de fogo dos homens do heli, e talvez sentindo que poderiam ficar entre dois fogos, os guerrilheiros fugiram apressadamente.

 

Não sei quem eram os homens do heli, eram de certeza da Base Aérea Nº 12 (BA12) sedeada em Bissau, pois era única que existia, gostaria de os conhecer para lhes agradecer pessoalmente, mas de qualquer modo aqui fica o meu muito obrigado, pois todos admirámos na altura a vossa coragem, sem a qual  de certeza que alguns de nós teríamos ficado naquela bolanha.

 


 

Publicado em 31/03/2008 por Carlos Fortunato

Crónica de Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13

(1) Fotos cedidas por Jorge Félix ex-alferes piloto aviador, Guiné 68/69/70.
(2) Fotos de Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13

(3) O autor deste vídeo é o Jorge Félix ex-alferes piloto aviador, Guiné 68/69/70, o qual surge logo nas primeiras imagens do vídeo, o autor das filmagens super 8mm, é o coronel piloto aviador Fernandes Nico

http://www.youtube.com/watch?v=Ka6ZcJhu_34


 

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